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Lula cobra coerência de progressistas em evento na Espanha

Presidente criticou a gestão neoliberal da esquerda e alertou para o avanço da extrema-direita, defendendo a democracia e a justiça social.

18/04/2026 às 20:21
Por: Redação

Em sua agenda europeia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva marcou presença em Barcelona, na Espanha, neste sábado (18), para a edição inaugural do evento Mobilização Progressista Global (MPG). O encontro reuniu ativistas e organizações de esquerda de diversas partes do mundo, com o propósito de fortalecer a democracia, promover a justiça social e resistir ao crescimento das forças autoritárias de extrema-direita.

 

Dirigindo-se a uma plateia de mais de 5 mil pessoas, que incluía outros chefes de Estado, em um centro de eventos, Lula iniciou seu discurso afirmando que os indivíduos não devem hesitar em se identificar como progressistas ou de esquerda no cenário global contemporâneo.

 

Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade.

 

O presidente reconheceu os avanços obtidos pelo campo progressista em benefício de grupos sociais como trabalhadores, mulheres, a população negra e a comunidade LGBTQIA+. No entanto, ele ponderou que a esquerda não conseguiu superar o domínio do pensamento econômico vigente, o que, segundo ele, abriu espaço para o fortalecimento de forças reacionárias na sociedade.

 

O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema.

 

Lula enfatizou que a coerência deve ser o princípio fundamental dos progressistas.

 

Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista. Ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, morar bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável, uma política de meio ambiente à altura. Ela quer um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permite uma vida confortável.

 

Para o presidente, a extrema-direita soube aproveitar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. Essa corrente política, conforme sua análise, canalizou a frustração popular por meio da invenção de inverdades e da propagação de discursos de ódio direcionados a mulheres, pessoas negras, comunidade LGBTQIA+ e imigrantes, transformando-os em vítimas.

 

No mesmo dia, mais cedo em Barcelona, o presidente participou da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, ao lado de outros líderes internacionais. Essa iniciativa foi criada em 2024 e envolve os governos do Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A reunião em Barcelona foi organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, e contou com a presença dos presidentes Yamandú Orsi, do Uruguai; Gustavo Petro, da Colômbia; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; Claudia Sheinbaum, do México; e do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.

 

Diante dos ativistas progressistas, Lula declarou que é imperativo identificar os verdadeiros responsáveis pela crise socioeconômica global: os poucos bilionários que detêm a maior parte da riqueza mundial.

 

Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam os algoritmos. A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas, é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo.

 

Críticas aos "Senhores da Guerra"

 

O presidente brasileiro reiterou suas críticas aos líderes dos países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, referindo-se a eles como "senhores da guerra". Ele condenou os bilhões de dólares empregados em armamentos, recursos que, segundo ele, poderiam ser direcionados para erradicar a fome, solucionar a crise energética e garantir acesso universal à saúde em todo o planeta.

 

O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências, sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas. Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado, defender que a paz faça prevalência sobre a força, é combate a fome e proteger o meio ambiente, é restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes.

 

Lula também alertou que a ameaça representada pela extrema-direita não é meramente retórica, mas uma realidade tangível. Ele mencionou que, no Brasil, essa força política articulou um golpe de Estado, planejando uma conspiração que incluiria o uso de tanques nas ruas e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral. O presidente citou o papa Leão XIV, que afirmou que a democracia corre o risco de se transformar em uma fachada para o domínio das elites econômicas e tecnológicas, e ressaltou o papel dos progressistas em desmascarar essas forças que, embora se declarem a favor do povo, governam para os mais ricos.

 

O presidente brasileiro ainda destacou que a democracia não é um fim em si mesma, mas uma construção diária que exige a melhoria concreta da vida das pessoas para manter sua credibilidade.

 

Não é democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor de sua pele, quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança.

 

Próximos compromissos na Europa

 

Após cumprir sua agenda na Espanha, Lula seguirá para a Alemanha neste domingo (19). No país, ele participará da Hannover Messe, considerada a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que nesta edição presta homenagem ao Brasil. Em território alemão, o presidente brasileiro também tem um encontro agendado com o chanceler Friedrich Merz.

 

A viagem europeia de Lula será concluída no dia 21, com uma breve visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, o presidente tem reuniões previstas com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

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