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Risco de Guillain-Barré sobe até 30 vezes após dengue, aponta pesquisa

Levantamento da Fiocruz aponta elevação de até 30 vezes no risco da síndrome após infecção por dengue

17/04/2026 às 00:53
Por: Redação

Pessoas que contraem o vírus da dengue apresentam um risco elevado de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas subsequentes à infecção, segundo estudo realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) em colaboração com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. O levantamento indica que, especialmente nas duas primeiras semanas após o surgimento dos sintomas típicos da dengue, a probabilidade de o paciente apresentar SGB pode ser 30 vezes maior em relação à população em geral. No período global de seis semanas, o risco é 17 vezes maior.

 

O estudo foi publicado na revista científica New England of Medicine e utilizou dados de três extensas bases do Sistema Único de Saúde (SUS): registros de internações hospitalares, notificações de casos de dengue e dados de óbitos.

 

Entre 2023 e 2024, a análise identificou mais de 5 mil hospitalizações por SGB, das quais 89 ocorreram logo após o paciente manifestar sintomas de dengue. Os autores do estudo detalham que, a cada 1 milhão de registros da doença transmitida pelo Aedes aegypti, em torno de 36 pessoas podem desenvolver a síndrome neurológica. Apesar de representar uma parcela pequena dos infectados, esse número é considerado relevante diante das recorrentes epidemias nacionais.

 

Segundo os pesquisadores, a dengue se expandiu pelo planeta em ritmo mais acelerado do que qualquer outra enfermidade transmitida por mosquitos, com 14 milhões de casos registrados globalmente apenas em 2024.

 

Com base na análise dos dados do SUS, a equipe científica recomenda que gestores de saúde pública atualizem os protocolos de vigilância para incluir a SGB como possível complicação pós-dengue, especialmente em contextos de surto.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

A Fiocruz ressalta que o levantamento serve de apoio a médicos, enfermeiros e neurologistas para considerar a SGB no diagnóstico de pacientes que, nas seis semanas anteriores, tenham apresentado quadro de dengue e sintomas como fraqueza nas pernas ou formigamento.

 

Os autores do estudo enfatizam que a identificação precoce da síndrome é essencial para o sucesso do tratamento, sendo que terapias como imunoglobulina e plasmaférese apresentam maior eficácia quando iniciadas rapidamente.

 

“Também é importante incentivar a notificação dos casos de SGB pós-dengue ou informar a vigilância epidemiológica municipal/estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus”, defendem.


 

Não existe atualmente um tratamento antiviral específico para combater a dengue. O manejo clínico baseia-se em hidratação e suporte médico. Dessa forma, de acordo com os pesquisadores, a prevenção segue como a estratégia mais eficiente, especialmente por meio do combate ao mosquito e da vacinação disponível no país.

 

A vacinação contra a dengue representa uma medida capaz de diminuir drasticamente o volume de casos e, assim, reduzir o número absoluto de complicações graves como a SGB.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Impactos da SGB e relação com doenças transmitidas por mosquitos

 

De acordo com a avaliação da Fiocruz, o Brasil enfrenta epidemias frequentes de dengue. Em 2024, o país ultrapassou 6 milhões de casos prováveis, o que evidencia que, mesmo sendo um evento raro, o número absoluto de pessoas que podem vir a desenvolver SGB após a infecção é significativo e exige atenção do sistema de saúde.

 

O trabalho científico também destaca que a ligação entre arboviroses, como dengue e zika, e o surgimento de quadros neurológicos já havia sido observada durante a epidemia de Zika ocorrida entre 2015 e 2016. Naquele período, o vírus foi atrelado ao aumento de registros de microcefalia em recém-nascidos e a uma elevação expressiva dos casos de SGB em adultos. Tanto o vírus da dengue quanto o da zika pertencem à mesma família.

 

A SGB consiste em uma condição neurológica rara, em que o próprio sistema imunológico passa a atacar os nervos periféricos, estruturas responsáveis por conectar o cérebro e a medula espinhal ao restante do organismo.

 

Os sintomas geralmente começam com enfraquecimento muscular nas pernas, podendo evoluir para os braços, rosto e, em quadros severos, afetar a respiração. Em situações extremas, o paciente pode sofrer paralisia total e necessitar de aparelhos para respirar.

 

Embora a maioria dos afetados por SGB consiga se recuperar integralmente ao longo de meses ou anos, parte dos pacientes pode apresentar sequelas permanentes após o quadro.

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