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Filmes de Brasil e Paraguai disputam Prêmio Platino com foco em democracia

Produções brasileiras e paraguaias analisam religião, ditadura e repressão em disputa ibero-americana

02/05/2026 às 14:38
Por: Redação

Dois documentários que abordam temas sensíveis relacionados à democracia na América Latina concorrem ao título de melhor documentário na 13ª edição do Prêmio Platino, considerado o principal prêmio do cinema ibero-americano. O resultado será anunciado em cerimônia marcada para o próximo sábado, no México.

 

A produção brasileira "Apocalipse nos Trópicos", dirigida por Petra Costa, traz como tema central a influência de movimentos religiosos evangélicos no cenário político nacional. Já o paraguaio "Sob as bandeiras, o Sol", com direção de Juanjo Pereira, faz um resgate histórico sobre o período da ditadura em seu país e busca apresentar a extensão de seu impacto.

 

Em "Apocalipse nos Trópicos", Petra Costa, que já foi indicada ao Emmy Awards por sua direção em documentários, investiga de que modo líderes religiosos evangélicos passaram a exercer influência sobre os rumos políticos do Brasil. O filme cobre acontecimentos que vão desde a ascensão ao poder de Jair Bolsonaro, em 2018, acompanhando seu governo até 2022, e narra ainda os episódios da tentativa frustrada de golpe ocorrida em janeiro de 2023. A obra também traz informações sobre o crescimento do segmento evangélico na população brasileira.

 

Histórico da repressão no Paraguai em destaque

 

O documentário paraguaio apresenta imagens raras para ilustrar o que foi a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o país entre 1954 e 1989. Esta foi a mais longa ditadura do continente, tendo deixado ao menos 20 mil vítimas e 420 pessoas mortas ou desaparecidas, segundo registros da Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai. "Sob as bandeiras, o Sol" já recebeu, inclusive, o prêmio do júri no Festival de Cinema de Berlim, em 2025.

 

Para a produção do filme, Juanjo Pereira utilizou cinejornais que eram exibidos em salas de cinema, além de filmes de propaganda do Estado, uma vez que parte significativa do acervo visual do Paraguai foi destruída para ocultar crimes cometidos durante a ditadura.

 

O Partido Colorado, que governa o Paraguai quase sem interrupção desde 1947 — sendo exceção o breve mandato do ex-bispo Fernando Lugo, eleito em 2008 —, retomou o poder após o afastamento de Lugo em processo político conturbado.

 

Sob as bandeiras, o Sol apresenta o papel dos meios de comunicação no apoio ao regime, sem utilizar entrevistas ou narração. O professor de História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Paulo Renato da Silva, considerado um dos principais estudiosos do tema, avalia como decisivo o controle dos meios de comunicação para a propaganda e para a supressão de críticas ao regime. Ele destaca:

 

“Ter o controle dos meios era decisivo, tanto para fazer a propaganda quanto para evitar as críticas e deixar um legado”, avaliou o professor. “No Paraguai, houve uso de jornais e do rádio para conquistar o apoio e buscar ‘consenso’”, citou o pesquisador.

 

Além de analisar o envolvimento da imprensa, o filme busca demonstrar de que forma as imagens do período moldaram a própria identidade nacional paraguaia.

 

Relação entre Brasil e ditadura paraguaia

 

Outro aspecto abordado pelo documentário é a colaboração do Paraguai, inclusive com o Brasil, na Operação Condor — aliança de regimes militares latino-americanos, com apoio dos Estados Unidos, que promovia ações coordenadas de inteligência, perseguição a opositores e troca de prisioneiros. O pesquisador da Unila resume que as nações firmaram parceria para perseguir opositores políticos e trocar prisioneiros.

 

A cooperação entre Brasil e Paraguai também envolveu projetos de infraestrutura, como a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, sendo acordos realizados em condições desfavoráveis ao Paraguai. O professor Paulo Renato destaca que essa relação ajudou a criar a falsa percepção de progresso no país:

 

“A parceria contribuiu para ‘vender a falsa imagem de um país que estaria se desenvolvendo, progredindo’”, explicou.

 

O filme ainda retrata o passado de Alfredo Stroessner, de ascendência alemã, e suas relações com criminosos nazistas, como o médico Josef Mengele.

 

Outros documentários na disputa pelo prêmio

 

Além dos filmes brasileiro e paraguaio, outros dois documentários concorrem ao Prêmio Platino: "Tardes de Solidão", dirigido pelo catalão Albert Serra, uma coprodução entre Espanha e Portugal, já premiada no Goya, e "Flores para Antônio", de Elena Molina e Isaki Lacuesta.

 

"Tardes de Solidão" acompanha o toureiro peruano Andrés Roca Rey, exibindo de maneira realista o universo das touradas, com cenas de sangue, combate e superação, o que gerou controvérsias junto a ambientalistas e até ao próprio protagonista, mas conquistou a crítica especializada.

 

O documentário "Flores para Antônio" relata a trajetória de Alba Flores, atriz espanhola de destaque conhecida no Brasil pela série "Casa de Papel" (2017), que busca compreender a vida e o legado do pai, Antonio Flores, cantor e compositor falecido quando ela tinha apenas oito anos.

 

Nas imagens de arquivo dos filmes citados, destacam-se cenas dos documentários "Tardes de Solidão" e "Flores para Antônio", ambas provenientes da divulgação do Prêmios Platino Xcaret.

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