A deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal em novembro de 2025, que revelou um esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Master, abalou o principal patrimônio do banco: a confiança do público e de seus trabalhadores. A repercussão do caso impacta diariamente os quase 5 mil funcionários da instituição.
Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e concursado do BRB desde 2008, afirma que tanto a sociedade quanto os trabalhadores estão assumindo as consequências de uma decisão política voltada ao resgate do Master. Ele relata que o ambiente de trabalho tornou-se mais tenso, sobretudo para aqueles empregados chamados a prestar informações à Polícia Federal e aos auditores sobre negociações com o banco de Daniel Vorcaro, preso desde o início de março de 2026.
Segundo o sindicalista, analistas das áreas que participaram de negociações com o Master são os mais procurados para esclarecimentos, já que podem oferecer informações úteis para as investigações. As negociações resultaram na aquisição de créditos bilionários do banco de Vorcaro e no anúncio da intenção do BRB de adquirir parte do Master por dois bilhões de reais, transação que foi reprovada pelo Banco Central dois meses antes da liquidação extrajudicial do Master e do início da operação da Polícia Federal.
O clima de incerteza e pressão é sentido por concursados, terceirizados e estagiários, que descrevem uma crise institucional sem precedentes desde a fundação do BRB, em 1964. Após o afastamento judicial do então presidente Paulo Henrique Costa (PHC), sob suspeita de irregularidades, clientes passaram a procurar informações sobre a solidez e os riscos da instituição para seus investimentos. Muitos cogitam resgatar seus recursos, e cabe aos funcionários o papel de tranquilizá-los e explicar a situação da instituição.
Oliveira destaca que os trabalhadores enfrentam a falta de respostas para muitos questionamentos dos clientes e que eles próprios têm receio diante das incertezas sobre o futuro:
“Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF”, ponderou Oliveira.
Entre os empregados, predominam sentimentos de indignação e apatia, já que, segundo o sindicalista, suspeitas sobre irregularidades nas negociações com o Master foram levantadas internamente antes mesmo da ação da Polícia Federal. O sindicato, desde novembro de 2024, denunciou a primeira transação de compra e venda de carteira de créditos ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários, considerando-a prejudicial ao BRB.
O cenário de incerteza atinge também cerca de 3 mil aposentados do BRB, cujos planos de saúde e previdência complementar dependem da estabilidade financeira do banco. A Previdência BRB esclarece que possui patrimônio superior a 4,39 bilhões de reais, totalmente separado dos recursos de patrocinadores e instituidores, como as empresas do conglomerado BRB, e que sua gestão é autônoma e independente.
O BRB, com mais de seis décadas de história, administra mais de 80 bilhões de reais em ativos pertencentes a mais de 10 milhões de clientes e afirma que, se necessário, pode absorver eventuais prejuízos com aportes de curto prazo. Entretanto, Oliveira acredita que a demora na resolução do caso pode assustar investidores e mercado mais do que o próprio impacto financeiro, arriscando o patrimônio do banco. Ele critica a carência de informações, que levou a agência de classificação Moody’s a rebaixar a nota do BRB.
A Moody’s destacou a falta de clareza quanto às consequências da compra de ativos do Master e a ausência de um plano de recuperação para o banco. Para a agência, o BRB dependerá de uma injeção substancial de capital, sob pena de não conseguir honrar seus compromissos.
Do ponto de vista institucional, o BRB tem se manifestado apenas por meio de avisos aos acionistas, comunicados ao mercado e fatos relevantes. Dirigentes e funcionários foram orientados a não conceder entrevistas até a conclusão das auditorias contratadas para apurar o prejuízo com a compra de créditos do Master e a análise do balanço contábil de 2025 pelos acionistas. Paralelamente, o banco lançou campanha digital reforçando sua solidez e estabilidade.
Na semana anterior, o novo presidente Nelson de Souza, que sucedeu PHC, não compareceu à Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do DF, justificando que não faria declarações públicas até que os resultados das auditorias fossem apresentados. A ausência resultou em sua convocação obrigatória pelos deputados distritais para prestar esclarecimentos em data ainda a ser definida.
Os parlamentares manifestaram insatisfação, destacando que a gravidade do caso exige transparência e respeito ao cidadão do Distrito Federal, que busca respostas sobre a real situação financeira do BRB.
Para Daniel Oliveira, a imagem negativa na imprensa pode fortalecer discursos favoráveis à privatização do BRB, o que poderia resultar na venda de ativos a grandes instituições financeiras por valores inferiores ao mercado. Segundo ele, há risco de que grandes bancos assumam contas governamentais e de empresas sem garantir o valor real dos ativos.
Projetos estratégicos, como a expansão do banco para outros estados, foram suspensos em meio à crise, frustrando funcionários que cogitavam transferências e os cerca de 400 aprovados no concurso de 2022, agora aguardando a resolução da situação para eventual convocação. A expansão, marca da gestão de PHC, avançou sobre a administração de folhas de pagamento de servidores em capitais como João Pessoa, além da abertura de agências na Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com correspondentes bancários em outros estados. O BRB também intensificou ações de marketing, incluindo parceria com o Flamengo e o banco digital Nação BRB Fla, que conquistou quase 4 milhões de clientes. No entanto, o projeto perdeu força antes mesmo de o interesse na aquisição do Master se tornar público e foi suspenso por tempo indeterminado após a operação policial.
Em 13 de abril, a governadora Celina Leão, que sucedeu Ibaneis Rocha após sua saída em março para concorrer ao Senado, admitiu que a diretoria do BRB avalia o fechamento de agências em outros estados. Segundo Celina, independentemente da decisão, o banco deverá retomar seu foco regional e priorizar a oferta de crédito no Distrito Federal, reafirmando que a instituição não corre risco de quebra e que está apta a cumprir acordos junto ao Banco Central.
A governadora prometeu apresentar e implementar uma solução para a crise em até 30 dias, prazo considerado insuficiente por representantes do sindicato.
“Quem é do ramo sabe que as dificuldades vão aumentar dia a dia se não houver logo um aporte [financeiro]; se não houver uma solução eficaz e rápida”, disse Oliveira. “A capitalização do BRB é imprescindível. Como fazê-la é uma decisão política”, acrescentou.
O sindicalista defende que cabe ao Governo do Distrito Federal fornecer condições para o resgate da credibilidade do BRB, preservando o controle público distrital sobre a instituição, que desempenha papel relevante no fomento da economia local e na execução de políticas públicas, como os programas Cartão Gás, Creche, Material Escolar e o sistema de bilhetagem automática utilizado no transporte público do DF, incluindo ônibus e Metrô.
O economista e professor da Universidade de Brasília César Bergo avalia que a não divulgação do balanço de 2025 e outros documentos contábeis do BRB aprofunda a crise de confiança, além de sujeitar o banco ao pagamento de multas diárias superiores a cinquenta mil reais, impostas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários.
Para Bergo, o déficit de transparência aumenta a insegurança entre correntistas e investidores, afetando não só o BRB, mas todo o sistema financeiro. Ele defende ações mais firmes do Banco Central e da CVM e critica a demora na realização das assembleias gerais que avaliarão as contas de 2025 e elegerão os novos conselheiros, marcadas apenas para o fim de abril.
“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”, questionou o economista.
Para César Bergo, há quatro alternativas possíveis para reverter a situação do BRB. A principal, em sua visão, seria o aporte de capital pelos sócios, especialmente o Governo do Distrito Federal, utilizando recursos públicos. Outra saída seria o BRB obter empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos ou a outros bancos, ganhando fôlego com pagamentos de juros elevados. Também existe a possibilidade de intervenção federal e federalização do banco, integrando-o a uma instituição pública federal como o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica Federal, a exemplo do ocorrido com o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) em 2008. Por fim, há a opção da privatização.
“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”, finalizou Bergo.
O BRB foi procurado para comentar o caso e fornecer esclarecimentos, mas não se manifestou até o fechamento desta reportagem. Também não houve retorno da defesa de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do banco, sobre o tema. Em nota, a governadora Celina Leão afirmou que a prisão preventiva do ex-presidente está sob análise do Judiciário, responsável pela apuração e julgamento dos fatos, e que todas as providências necessárias foram adotadas em colaboração com as autoridades competentes desde o início do caso.