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Cinema latino-americano debate democracia e herança autoritária

Produções em premiação ibero-americana abordam regimes ditatoriais e direitos sociais, segundo especialistas.

03/05/2026 às 14:35
Por: Redação

As telas da América Latina continuam sendo um palco significativo para o diálogo sobre a democracia, a memória política e as consequências do autoritarismo. A recorrência desses assuntos no cenário cinematográfico reflete as contínuas tensões presentes na região, conforme apontado por especialistas em ditaduras e cinema que foram entrevistados pela Agência Brasil.

 

Ao menos três filmes que abordam essa temática competem no Prêmio Platino, a principal cerimônia de reconhecimento do cinema ibero-americano. Os vencedores desta edição serão divulgados em 9 de maio, em um evento que ocorrerá no México.

 

Entre as obras que explicitamente trazem à tona discussões sobre regimes autoritários e a democracia, estão o longa-metragem brasileiro O Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça, que disputa o prêmio de melhor filme do ano.

 

Também concorre o documentário brasileiro Apocalipse nos Trópicos, da diretora Petra Costa.

 

A memória da ditadura militar é abordada no documentário paraguaio Sob as bandeiras, o Sol, de Juanjo Pereira.

 

Obras exploram direitos sociais e impactos das ditaduras

 

O filme O Agente Secreto explora o apoio dado pelo empresariado ao regime militar, a perseguição política e o esforço para apagar a memória da ditadura no Brasil. Por sua vez, o documentário de Petra Costa investiga a influência da religião evangélica nos rumos da política nacional. Já a produção paraguaia de Juanjo Pereira utiliza imagens raras para narrar a história da ditadura em seu país.

 

Paulo Renato da Silva, professor de História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), analisou que “Nossos países possuem populações privadas de direitos, como saúde, alimentação e moradia, e essas carências provocam insatisfações”. Ele enfatizou que a democracia é o caminho para atender às demandas por direitos, ao contrário dos regimes autoritários.

 

É a democracia que permite você olhar para essas demandas [por direitos] e, como sociedade, buscar atendê-las.

 

O professor explicou que regimes autoritários, em geral, beneficiam grupos políticos e econômicos específicos, restringindo a liberdade de expressão e outras manifestações de oposição. Paulo Renato da Silva é um dos principais pesquisadores da ditadura no Paraguai, um regime que contou com o suporte do Brasil em ações como a Operação Condor, mencionada no documentário paraguaio.

 

Fragilidade democrática como "pauta não resolvida"

 

Marina Tedesco, professora de cinema da Universidade Federal Fluminense e especialista na cinematografia latino-americana, complementa que a fragilidade democrática na América Latina é uma “pauta não resolvida”.

 

Ela observa que “Ainda vemos presidentes e importantes atores políticos defendendo o regime militar ou afirmando que não foram graves”, referindo-se tanto às violações de direitos humanos quanto aos casos de corrupção. Como exemplo, Tedesco citou o ex-presidente Jair Bolsonaro, que reverenciou Alfredo Stroessner, retratado no filme de Juanjo Pereira. Stroessner liderou um regime corrupto e brutal no Paraguai, responsável pela prisão e tortura de mais de 20 mil pessoas.

 

A professora também destacou que a democracia sempre foi um tema central no cinema, primeiro de forma clandestina e, posteriormente, através de produções de exilados políticos. “Pelo fato de a discussão incomodar, ainda vemos governos autoritários na América Latina atacando tanto o cinema ─ uma instância onde esses temas ainda são tratados”, reforçou.

 

No ano de 2025, o filme Ainda Estou Aqui, que aborda a ditadura brasileira pela perspectiva da família do ex-deputado Rubens Paiva, foi o grande premiado no Prêmio Platino.

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