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Jornalismo: Ensino busca ética e crítica frente à IA e desinformação

Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo defende formação humana e presencial para o futuro da profissão.

23/04/2026 às 12:47
Por: Redação

A evolução acelerada da inteligência artificial (IA) e a crescente disseminação de informações falsas exigem que as faculdades de jornalismo fortaleçam uma formação acadêmica pautada em valores humanos, pensamento crítico e princípios éticos. Esta é a visão central apresentada pela professora Marluce Zacariotti, docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e atual presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej).

 

Para a especialista, esses fundamentos são essenciais para assegurar a contínua credibilidade social do jornalismo em um período marcado por desafios significativos. A professora Marluce Zacariotti participa atualmente do 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), que ocorre na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e se estende até o dia 24 de abril.

 

Transformação Curricular e o Papel Clássico

 

A pesquisadora compreende que tanto a formação acadêmica quanto o exercício profissional do jornalismo atravessam um período que demanda profunda reflexão e iniciativas concretas. Conforme sua análise, a solução não reside apenas em um aprimoramento técnico ou na simples inclusão de novas disciplinas sobre inteligência artificial ou combate à desinformação nos currículos. Marluce Zacariotti enfatiza que esses temas devem ser abordados de maneira transversal, integrando-se às diversas disciplinas já existentes nos cursos. Ela declarou que é "preciso olhar para a pedagogia do jornalismo com o objetivo de reafirmar o papel clássico da atividade".

 

A formação em jornalismo, na perspectiva da presidente da Abej, não pode negligenciar o incentivo à pesquisa jornalística e o aprimoramento das metodologias de verificação de dados. Embora as tecnologias possam otimizar essas práticas, é imperativo que o papel humano na produção jornalística seja fortalecido. Ela defende que a academia deve ir além dos limites da sala de aula, reconhecendo o papel da extensão universitária. Isso implica em identificar públicos e estabelecer parcerias que contribuam para o processo de aprendizado, pois, segundo ela, "O jornalismo é um curso, por natureza, extensionista".

 

No decorrer do evento em Brasília, a professora Marluce Zacariotti salientou a importância crucial de os cursos de jornalismo firmarem colaborações estratégicas para reforçar a função da extensão no processo educacional.

 

As instituições de ensino podem desempenhar um papel fundamental na orientação pedagógica para a compreensão do "novo universo" informacional, auxiliando na identificação de seus contextos econômicos e políticos. A pesquisadora pontua que "É preciso entender que a gente vive nesse novo universo. Fechar as portas para isso é estar distante também dos nossos alunos".

 

Adaptando-se à Tecnologia

 

O componente social, portanto, é intrínseco à formação jornalística. Dentro da perspectiva humanística esperada de estudantes e profissionais, a formação não deve estigmatizar as tecnologias. Marluce Zacariotti argumenta que os pesquisadores não devem abordar as inovações com um olhar catastrofista ou apocalíptico.

 

É preciso olhar e entender que são ferramentas que a gente precisa saber usar
da melhor maneira possível. É não negar, mas aproveitar o potencial que elas podem ter para nos ajudar.

 

A professora observa que muitos alunos ainda não compreendem a melhor forma de utilizar essas ferramentas, o que torna o diálogo com eles essencial na busca por soluções.

 

Transparência e Consciência Cidadã

 

A professora enfatiza a necessidade de formar jornalistas com uma sólida consciência cidadã. Ela considera que este é um caminho irrenunciável para consolidar a relevância da profissão perante a sociedade. É fundamental investir em educação midiática e literacia midiática, visando explicar ao público a complexidade do ecossistema de mídia.

 

Nesse panorama, torna-se crucial que o público consiga discernir entre o trabalho realizado por jornalistas e o conteúdo produzido por influenciadores. Marluce Zacariotti ressalta que "Muitas vezes, as pessoas não sabem se aquilo é uma informação jornalística produzida por profissionais, com visões, abordagens e contextualização do tema".

 

A Reconfiguração do Cenário Midiático

 

Adicionalmente, os educadores devem considerar que, diante da proliferação da desinformação, o ambiente midiático global está em um processo de reconfiguração completa. A professora explica que, na avaliação dos pesquisadores, as grandes corporações de mídia contemporâneas são as big techs (gigantes de tecnologia), e não mais os veículos de comunicação tradicionais.

 

Se antes a gente falava de impérios midiáticos, agora lidamos com forças um pouco mais ocultas porque a gente está lidando com algoritmos.

 

Este sistema midiático, onde cada indivíduo atua como gerador de dados, está "digitalizado e plataformizado" e exige que a crítica e a ética precedam a técnica.

 

Por essa razão, Marluce Zacariotti afirma que a formação em jornalismo deve preparar os futuros profissionais para enfrentar os desafios com responsabilidade, buscando um diferencial na produção de conteúdo. O objetivo é "Não reproduzindo, mas produzindo com essas possibilidades tecnológicas".

 

O Valor do Formato Presencial

 

A pesquisadora também destaca que a formação na área de jornalismo deveria priorizar os aspectos presenciais. Ela argumenta que "O jornalismo é uma atividade coletiva, que exige a troca. É sempre muito difícil imaginar como fazer isso totalmente online".

 

Da mesma forma, no âmbito profissional, as redações que operam de forma coletiva são consideradas mais enriquecedoras em termos de discussão do que o trabalho realizado virtualmente. Essa dinâmica, segundo a professora, "afeta, inclusive, o perfil do próprio jornalista". Ela observa que o jornalista contemporâneo está cada vez mais presente na redação e menos em campo, uma situação que também está relacionada às condições de trabalho precarizadas.

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