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Pesquisadores investigam reaparecimento de tartarugas-cabeçudas na Guanabara

O retorno incomum da espécie oceânica à Baía de Guanabara tem intrigado cientistas e pescadores, abrindo novas frentes de estudo e levantando questões sobre os desafios ambientais locais.

25/04/2026 às 16:57
Por: Redação

A Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, tem sido palco de um fenômeno notável: o reaparecimento de tartarugas-cabeçudas, uma espécie ameaçada de extinção. Essa ocorrência inesperada tem despertado grande interesse entre pesquisadores e pescadores artesanais, que buscam compreender o comportamento desses animais e o que o retorno pode significar para o ecossistema local. As biólogas Larissa Araujo e Suzana Guimarães foram fotografadas com exemplares da espécie.

 

Desde 2024, o Projeto Aruanã, uma iniciativa dedicada à conservação de tartarugas marinhas na costa fluminense, tem documentado com maior frequência a presença desses animais no interior da baía. Essa constatação contrasta com registros anteriores, que eram mais esporádicos.

 

Um evento de destaque ocorreu em 18 de abril, quando pescadores e cientistas uniram esforços para marcar duas tartarugas-cabeçudas. Os animais haviam entrado e permanecido em currais de pesca dentro da baía. Para os especialistas, esse é um acontecimento inédito sob o ponto de vista científico, que aponta para a necessidade de novas investigações.

 

As tartarugas-cabeçudas (Caretta caretta) são tipicamente habitantes de áreas oceânicas, onde sua dieta consiste principalmente em crustáceos, como camarões e lagostas. A razão para sua presença mais constante nas águas internas da Baía de Guanabara ainda é objeto de intensos estudos.

 

Larissa Araujo, bióloga do Projeto Aruanã, relatou que informações antigas mencionavam aparições ocasionais, mas sem qualquer registro sistemático. Ela explicou que, a partir de julho de 2025, os avistamentos se tornaram mais frequentes, incluindo a entrada das tartarugas nos currais de pesca.

“Não temos informações pretéritas sobre a ocorrência da espécie no interior da baía, apenas relatos pontuais feitos pelos pescadores, que informavam ser mais rara a sua presença. Desde julho de 2025, esses registros começaram a aumentar e passou a ocorrer também a entrada delas nos currais de pesca”, afirmou Larissa Araujo.


 

A principal teoria levantada pela bióloga sugere que os animais podem estar encontrando condições alimentares abundantes na baía.

“Essa espécie tem hábitos mais oceânicos do que costeiros ou estuarinos, mas podem estar encontrando no interior da Baía de Guanabara uma farta disponibilidade de alimentos”, disse Larissa Araujo.


 

Para aprofundar a compreensão desse fenômeno, o Projeto Aruanã planeja uma nova fase de monitoramento. Esta etapa incluirá o uso de transmissores via satélite para rastrear as rotas das tartarugas, o tempo que permanecem na baía e suas áreas preferenciais de movimentação.

 

Contudo, Larissa Araujo ressalta que, apesar da possível oferta de alimentos, a Baía de Guanabara apresenta sérios perigos para a sobrevivência das tartarugas. Entre os riscos, ela cita diversas atividades humanas que impactam a região:

  • contato constante com águas poluídas;
  • colisões com embarcações;
  • ingestão de resíduos sólidos;
  • captura acidental em artes de pesca.

“Há diversas atividades de origem humana ocorrendo na Baía de Guanabara. Podemos citar contato constante com águas poluídas, colisões com embarcações, ingestão de resíduos sólidos e captura acidental em artes de pesca”, alertou a bióloga.


 

A coordenadora-geral do projeto, bióloga Suzana Guimarães, enfatizou que, por enquanto, não é possível estabelecer uma conexão direta entre o retorno das tartarugas e uma melhoria na qualidade ambiental da baía.

“Não é possível afirmar se há relação direta entre uma melhora na qualidade ambiental da Baía de Guanabara e a ocorrência de tartarugas marinhas, uma vez que ainda são limitadas as ações efetivas voltadas à despoluição e ao monitoramento dessas espécies”, explicou Suzana Guimarães.


 

Ainda assim, Suzana considera que os recentes registros são um indicativo da notável capacidade de recuperação ambiental da área.

 

“Esses registros são importantes para mostrar que a Baía de Guanabara, apesar da grande poluição ainda presente, é resiliente e permanece abrigando uma enorme biodiversidade”, afirmou Suzana Guimarães.

 

O programa de monitoramento atual conta com a participação ativa de pescadores e moradores locais, que reportam os avistamentos à equipe do projeto por meio de redes sociais e outros canais de comunicação. Quando as tartarugas são encontradas presas em currais de pesca, equipes especializadas realizam a marcação, coletam dados biométricos e avaliam a saúde dos animais antes de liberá-los.

 

“O conhecimento da ocorrência frequente dessa espécie na Baía de Guanabara, para nós pesquisadores, é algo recente e que, graças à parceria com os pescadores artesanais, agora estamos tendo acesso a essa informação preciosa”, destacou Suzana Guimarães.

 

O caso da tartaruga Jorge

 

Em 2025, um caso específico ganhou grande repercussão: o da tartaruga-cabeçuda macho batizada de Jorge. Após viver aproximadamente 40 anos em cativeiro na Argentina, Jorge passou por um processo de reabilitação e foi devolvido ao oceano. O animal era monitorado por satélite e, para a surpresa dos pesquisadores, entrou na Baía de Guanabara poucos meses após sua soltura.

 

“Até hoje os pescadores comentam que seguem tentando encontrar o Jorge. Tudo isso desperta um senso de conservação nas pessoas, além de estimular o interesse para as questões ambientais”, pontuou Suzana Guimarães.


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