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Pesquisadores analisam origem de tartarugas-verdes em Arraial do Cabo

Projeto Costão Rochoso monitora tartarugas e coleta DNA para identificar populações que dependem do litoral de Arraial do Cabo.

21/04/2026 às 15:38
Por: Redação

Em uma tarde de mar tranquilo e céu claro, pesquisadores a bordo de um caiaque adentram o mar na Praia do Pontal, localizada na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro. Eles avançam até aproximadamente 200 metros da faixa de areia, onde um dos mergulhadores entra na água e, em poucos minutos, retorna à embarcação com uma tartaruga marinha. Logo em seguida, outra tartaruga é capturada utilizando o mesmo método.

 

A atividade, que chama a atenção de pescadores e banhistas, é completamente não predatória. O objetivo é o monitoramento da saúde das tartarugas e faz parte das ações do Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental. Esse projeto, com o apoio da Petrobras, dedica-se à realização de estudos científicos para promover a preservação e a recuperação dos costões rochosos, áreas de transição entre o litoral e o oceano.

 

Um dos desafios colocados em prática pela equipe é determinar a origem das tartarugas encontradas em Arraial do Cabo, região conhecida por concentrar o maior número de tartarugas-verdes em áreas de alimentação marinha no país.

 

De acordo com uma das fundadoras do projeto, a bióloga Juliana Fonseca, todas as cinco espécies de tartarugas marinhas registradas no Brasil podem ser encontradas em Arraial do Cabo.

 

Monitoramento detalhado das espécies

Após serem capturadas, as tartarugas são levadas para a areia, onde passam por uma série de exames. O procedimento inclui pesagem, medição e coleta de amostras de tecido, semelhante a uma biópsia, com o objetivo de identificar a origem dos animais, conforme explica Juliana Fonseca.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora.”

 

Segundo a bióloga, ao identificar a origem dessas tartarugas, será possível determinar quais populações dependem da área para se alimentar. Esse conhecimento permitirá compreender melhor a relação entre locais de desova e zonas de alimentação desses animais.

 

As tartarugas, cuja expectativa de vida pode chegar a 75 anos, permanecem cerca de dez anos nas águas de Arraial do Cabo, podendo chegar até 25 anos antes de retornarem ao local de nascimento para reprodução. Juliana Fonseca detalha que as tartarugas costumam chegar ainda pequenas à região e crescem no litoral do Rio de Janeiro.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos.”

 

Técnicas de identificação e análise genética

O monitoramento realizado pelo projeto abrange as espécies tartaruga-verde e tartaruga-pente em três praias de Arraial do Cabo: Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal, além da Ilha de Cabo Frio, todas localizadas dentro da reserva marinha. Durante o processo, são aferidos casco, nadadeiras, cauda e até mesmo as unhas dos animais.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”, diz Juliana.

 

Os pesquisadores usam também fotografias e softwares para identificar individualmente os animais. O reconhecimento é feito a partir das placas presentes na cabeça das tartarugas, que apresentam formatos e tamanhos variados em cada indivíduo, funcionando como uma espécie de impressão digital.

 

Desde 2018, aproximadamente 500 tartarugas já foram catalogadas pelo projeto. Dessas, 80 passaram pelo procedimento de coleta de DNA, análise realizada em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e que deve apresentar resultados em até seis meses.

 

Interação com humanos e turismo responsável

Outra linha de pesquisa do Projeto Costão Rochoso busca determinar a distância mínima que as tartarugas conseguem tolerar quanto à aproximação de pessoas.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”, constata a mergulhadora.

 

A equipe realiza simulações de aproximação, observando em que momento a tartaruga altera seu comportamento. A partir desse monitoramento, será possível estabelecer uma média da distância aceitável para esses animais, que servirá de base para a elaboração de um guia de boas práticas de observação destinado ao turismo, não apenas em Arraial do Cabo, mas também em outras regiões do Brasil e do exterior.

 

Durante as atividades de pesagem, medição e coleta de material, é comum que banhistas, inclusive crianças, se aproximem para observar. Diante de perguntas, como a de um turista que questionou "Está doente?", os integrantes do projeto esclarecem que o procedimento visa exclusivamente a preservação das tartarugas. Próximo ao local dos exames, uma placa na praia alerta: “Proibido tocar nos animais marinhos”.

 

Requisitos técnicos e autorizações para pesquisa

A bióloga e pesquisadora Isabella Ferreira informa que para a captura das tartarugas é necessário possuir formação em áreas como biologia, veterinária ou oceanografia. Além disso, a atividade requer autorizações específicas concedidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e pelo Projeto Tamar, fundado em 1980 e internacionalmente reconhecido como referência em conservação marinha.

 

Isabella Ferreira ressalta que todas as etapas do trabalho, incluindo captura, marcação e fotografia das tartarugas, dependem de autorização prévia. A equipe comunica sempre os guardas ambientais e apresenta as permissões necessárias antes de realizar qualquer intervenção na área da reserva.

 

O deslocamento da equipe de reportagem e do fotógrafo ocorreu a convite da Petrobras, parceira do Projeto Costão Rochoso.

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