Em Hannover, na Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler federal Friedrich Merz se reuniram nesta segunda-feira (20) para fortalecer as relações bilaterais entre Brasil e Alemanha. Esta foi a terceira reunião entre os dois líderes desde 2023. Durante a visita, Lula também discursou na cerimônia de abertura da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, na qual o Brasil foi o país de destaque neste ano. O presidente brasileiro ainda participou de encontros com empresários dos dois países, ressaltando as oportunidades brasileiras no setor de biocombustíveis.
Após a assinatura de acordos em diferentes áreas, Lula e Merz concederam entrevista coletiva, na qual expressaram preocupação com a situação de instabilidade global, mencionando o cenário de guerra no Oriente Médio e possíveis intervenções militares em Cuba, motivadas por ameaças recorrentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Lula afirmou que considera injustificável o atual conflito no Oriente Médio e criticou a atuação da Organização das Nações Unidas, por não buscar com maior ênfase soluções diplomáticas para a crise internacional.
"A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada", afirmou Lula.
O presidente brasileiro também mencionou a guerra na Ucrânia, ressaltando que a paz desejada está cada vez mais distante. Lula destacou ainda a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU, defendida há décadas pelo Brasil e pela Alemanha.
"Entre a ação dos que provocam guerra e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. Brasil e Alemanha defendem há décadas uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança", pontuou Lula.
O chanceler alemão, ao ser questionado por jornalistas, informou ter solicitado uma reunião extraordinária nas Nações Unidas para debater propostas e medidas. Ele lamentou o novo fechamento do Estreito de Ormuz, no Irã, e enfatizou o impacto econômico decorrente da guerra, que não se limita à região do Oriente Médio.
"A reabertura do Estreito de Ormuz tinha sido anunciada e feita, e depois fecharam de novo. Por isso, os preços [do petróleo] aumentaram de novo. Nosso apelo vai para o Irã, de cessar-fogo. Nosso apelo vai também para os EUA para que procurem soluções diplomáticas. As implicações e consequências da guerra não atingem apenas o Oriente Médio, mas pode levar a uma desestabilização política", declarou Friedrich Merz.
Segundo Merz, a estabilidade energética global depende do fim imediato dos conflitos armados.
Acerca das ameaças de intervenção militar em Cuba, Friedrich Merz afirmou que a Alemanha não reconhece qualquer base legal para a realização de uma ação desse tipo no país caribenho. O chanceler alemão declarou que não há indícios de perigo para outros países que justifiquem tal medida e defendeu novamente o uso do diálogo diplomático.
"Não vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não sei porque seria necessário haver uma intervenção", afirmou o chanceler, complementando: "Poder se defender não quer dizer poder interferir em outros países que têm sistemas políticos que não nos agradam".
Lula reiterou oposição a intervenções unilaterais em Cuba e em regiões como Venezuela, Ucrânia, Irã e Faixa de Gaza. O presidente brasileiro enfatizou a importância de respeitar a integridade territorial das nações e condenou ingerências políticas externas sobre organizações sociais de outros países.
"Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política sobre como uma sociedade deve se organizar ou não", declarou Lula.
O presidente também criticou o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, vigente há quase sete décadas, e afirmou que a supremacia da força não é um caminho bem-sucedido para solucionar impasses globais.
"Se a gente continuar a acreditar que deve prevalecer a lei do mais forte, isso já aconteceu outras vezes no mundo e não deu certo", concluiu Lula.
Durante a declaração à imprensa, tanto Lula quanto Merz celebraram a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, cuja vigência provisória está prevista para maio. O chanceler destacou a atuação do Brasil como defensor da implementação do tratado, ressaltando que a entrada em vigor estimulará a cooperação em áreas como tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura e energia.
Lula avaliou que o início do acordo abrirá espaço para uma parceria abrangente, que vai além do livre comércio, englobando a valorização de trabalhadores, direitos humanos e proteção ambiental. Entretanto, o presidente criticou práticas europeias que, segundo ele, impõem mecanismos de cálculo de carbono baseados em critérios unilaterais e que não condizem com a baixa emissão do modelo produtivo brasileiro, sustentado majoritariamente por fontes renováveis.
Ele defendeu que a sustentabilidade do acordo depende do equilíbrio entre as concessões das duas partes, apontando que certas medidas adotadas pela União Europeia podem comprometer esse equilíbrio.
"Um acordo só se sustenta se há equilíbrio nas concessões feitas de parte a parte. Uma série de medidas adotas pela União Europeia ameaçam, no entanto, desnivelar os pratos dessa balança. É legítimo impulsionar políticas de descarbonização, preservação ambiental e desenvolvimento industrial, mas não é correto adotar métricas que não são fidedignas à realidade nem compatíveis com regras multilaterais", afirmou Lula.
Durante a visita, foram firmados acordos entre os governos brasileiro e alemão em diversas áreas, incluindo defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia, pesquisa oceânica e climática.
A Alemanha, terceira maior economia do mundo, é o quarto maior parceiro comercial do Brasil, com volume de trocas de bens e serviços que atingiu cerca de 21 bilhões de dólares em 2025. O país europeu também figura entre os principais investidores estrangeiros diretos no Brasil, com estoque superior a 40 bilhões de dólares.
Friedrich Merz manifestou o interesse alemão em fortalecer a cooperação com o Brasil no setor de minerais críticos, essenciais para tecnologias avançadas, defesa e transição energética, como baterias, painéis solares e turbinas. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais desses insumos, cuja oferta é considerada estratégica devido ao risco de escassez e à concentração em poucos fornecedores.
"Estamos aprofundando nossa relação na área de matéria-prima crítica e isso e uma base central para desenvolvermos as tecnologias do futuro", declarou o chanceler alemão.
Lula destacou o interesse brasileiro em atrair cadeias de processamento de minerais críticos para o território nacional, defendendo a atuação do país não apenas como exportador de matéria-prima, mas também como desenvolvedor tecnológico. O presidente classificou como prioridade a colaboração em setores de alta tecnologia e afirmou que o Brasil não pretende restringir sua atuação à comercialização de commodities.
"Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities".
Os líderes de Brasil e Alemanha também salientaram o potencial de expansão da parceria no campo dos biocombustíveis, especialmente para a descarbonização do transporte. Lula defendeu a diversificação das fontes de energia e apontou que a recente elevação dos preços do petróleo mostra que é o momento para a Europa superar resistências ideológicas aos biocombustíveis, que são, segundo ele, opções viáveis e eficientes para o setor. O presidente ressaltou a capacidade do Brasil de produzir etanol e biodiesel sem abrir mão da produção de alimentos nem das áreas de florestas, resultado de cinco décadas de experiência acumulada.
O chanceler alemão também defendeu o fortalecimento dos investimentos em combustíveis renováveis, citando exemplos de veículos movidos a biocombustível apresentados durante a feira industrial de Hannover e reconhecendo o avanço brasileiro nesse setor.
Ambos reforçaram a necessidade de aprofundar a cooperação tecnológica e econômica para enfrentar desafios globais e promover desenvolvimento sustentável, destacando a importância da relação bilateral em áreas estratégicas para o futuro de ambos os países.