A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, declarou que a extinção da jornada de trabalho conhecida como escala 6x1, em que o trabalhador dispõe de apenas um dia de descanso semanal, representa uma demanda atual e contribuirá para ampliar as possibilidades de inserção das mulheres no mercado de trabalho.
Em suas palavras, o término desse regime permitirá que mulheres cuidem de forma mais adequada da própria saúde, das relações familiares e da vida em comunidade. Segundo Márcia Lopes, a medida é fundamental no contexto contemporâneo.
“Elas vão cuidar melhor da saúde, das relações familiares, territoriais. Eu não tenho dúvida que é uma exigência do nosso tempo o fim da escala 6x1”, disse.
O argumento da ministra foi apresentado após evento realizado na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro, durante entrevista exclusiva concedida à Agência Brasil.
A discussão sobre a alteração na jornada ocorre no momento em que o Congresso Nacional avalia o Projeto de Lei (PL) 1838/2026, proposto pelo governo federal. O texto prevê a redução do limite semanal de trabalho de 44 para 40 horas, assegurando dois dias de descanso remunerado sem redução de salário.
O governo federal solicitou caráter de urgência para análise do PL, que até a tarde de quinta-feira (30) aguardava decisão do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), para que fosse apreciado pela Casa.
Além do projeto de lei, tramitam na Câmara dos Deputados duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC), de números 221/19 e 8/25, também relacionadas ao fim da escala 6x1. Na quarta-feira (29), foi criada uma comissão especial para tratar dessas propostas.
Márcia Lopes afirmou que mulheres são as principais afetadas negativamente pelo regime de trabalho 6x1. De acordo com a ministra, a sobrecarga feminina resulta da configuração da sociedade, que ela classificou como machista.
“Não há dúvida disso”, afirma.
A ministra explicou que historicamente as mulheres sempre acumularam jornadas múltiplas, além das atividades remuneradas, destinando uma parcela significativa do tempo a tarefas não remuneradas, como obrigações domésticas e cuidados com filhos e familiares.
“Às mulheres, historicamente, foi imputado a elas, dupla, tripla jornadas de trabalho. A elas sempre coube, além do trabalho remunerado, uma grande parte do seu tempo com trabalho não remunerado”, explica.
Ela acrescentou que, mesmo após o expediente formal, as mulheres frequentemente iniciam outras atividades, seja estudando, cuidando do lar ou dos filhos e realizando outros afazeres.
Mudanças na jornada, segundo Márcia Lopes, têm potencial para amenizar a sobrecarga sobre as mulheres e representam uma estratégia para fomentar a empregabilidade e diminuir desigualdades de gênero no âmbito laboral.
“Ao alcançar o fim da escala 6x1 e trabalhar pela igualdade salarial, as mulheres vão tendo muito mais chance de acessar o trabalho e de conquistar espaços e condições de trabalho melhores”, diz ela, enfatizando entre as beneficiadas as mulheres periféricas e negras.
O 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, revelou que mulheres brasileiras recebem, em média, 21,3% menos do que homens no setor privado que emprega 100 pessoas ou mais. Isso significa que, a cada mil reais pagos a um homem, uma mulher recebe 787 reais.
A Lei n° 14.611, de julho de 2023, estabelece que empresas com pelo menos 100 funcionários devem adotar ações para garantir igualdade salarial entre homens e mulheres em funções idênticas, incluindo a obrigação de divulgar informações salariais.
Segundo a ministra das Mulheres, a extinção da jornada com apenas um dia de repouso semanal deve contribuir também para as empresas, reduzindo índices de absenteísmo, como faltas, atrasos e saídas antes do horário, além de gerar efeitos positivos para a economia nacional.
“Traz muito mais dignidade, traz tempo livre que será utilizado para, inclusive, ir ao cinema, visitar museu, poder se alimentar melhor, organizar a sua comunidade, o seu território, de poder empreender”, lista.
Vários estudos buscam projetar as consequências da diminuição da jornada de trabalho no Brasil. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica riscos para a competitividade do setor e prevê uma perda de 76 bilhões de reais no Produto Interno Bruto (PIB), além de aumento médio de preços em 6,2%.
Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que a redução da jornada elevaria os custos com a folha de pagamento em 21%, além de pressionar os preços ao consumidor, com possibilidade de alta de até 13%.
Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão vinculado ao Ministério do Planejamento e Orçamento, argumenta que os custos com uma possível jornada de 40 horas semanais seriam similares aos observados em reajustes anteriores do salário mínimo, sugerindo que o mercado de trabalho poderia absorver a mudança.
Márcia Lopes, que também lidera o Conselho Nacional de Direito da Mulher, relatou que grupos femininos já dialogam com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, em busca de apoio para aprovar o fim da escala 6x1.
“As mulheres são fortes, são mobilizadas e já estão fazendo isso”, disse.
Apesar de reconhecer divergências quanto ao tema, a ministra demonstrou otimismo quanto à aprovação da medida em breve.
Durante o evento no BNDES, foram anunciados investimentos de 80 milhões de reais destinados a projetos que favorecem mulheres empreendedoras e iniciativas de cuidado em periferias urbanas. Exemplos dessas iniciativas incluem cozinhas comunitárias, lavanderias públicas e cuidadotecas.
Para Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, presente no evento, a eliminação da escala 6x1 tem relação direta com a melhoria das condições de vida das mulheres.
“A luta para que a gente mude essa situação da escala 6x1 é exatamente ter direito a se cuidar, ter direito ao fim de semana, ao autocuidado”, disse.